Pensamento do inantecipável e figuração da coisa outra

Pensamento do inantecipável e figuração da coisa outra

Nos trabalhos de Cássio Markowski os corpos não querem ser retratos, os espaços não se resumem a paisagens, as cenas obliteram as situações reconhecíveis. Em meio a flutuações e vazios, o que emerge são encontros e combinações inesperadas: um cacto nas nuvens, um rosto-espelho de árvores, pares de pessoas sem rostos, um homem com cabeça e pé de cogumelos. Resultando numa imagem que não se deixa resumir pela simplicidade de um presente, nem pela mera afirmação de uma presença, o que se destaca é o momento em que a forma está se formando. Trata-se de compostos matéricos e rítmicos, incidências de rastros e devires que reembaralham os significados fechados em proveito de enigmas. Semelhante a uma cenografia hieroglífica e onírica, é o jamais visto que cintila com a sutil intensidade do que não se deixa antecipar.

Operando através de uma perturbadora (des-) continuidade e interrogando tanto a verdade ontológica como a própria subjetividade, tanto a precisão visual como os fragmentos do mundo produzido pela realidade midiática, suas apropriações e colagens fotográficas pertencem a um campo impremeditado e indiviso que recusa as antecipações classificatórias e ordenadoras.

Thought of the unanticipated and figuration of something else.

In Cássio Markowski’s artwork the bodies do not want to be portraits, the spaces cannot be summed up as landscapes, the scenes obliterate the recognizable situations. Amid flotations and emptiness, what emerges are unexpected encounters and combinations: a cactus in the clouds, a face-mirror of trees, pairs of faceless people, a man with head and foot of mushrooms. This results in an image that does not let itself to be summarised by the simplicity of a present, nor by the mere statement of a presence. What stands out is the moment when the form is being formed. These are materials and rhythmic compounds, incidences of tracks and becomings that reshuffle closed meanings for the sake of enigmas. Similar to a hieroglyphic and dreamlike scenario, it is the neverseen that sparkles with the subtle intensity of what can not be anticipated.Operating through a disturbing (dis-) continuity and interrogating both ontological truth and subjectivity itself, both the visual precision and the fragments of the world produced by the media reality, his appropriations and photographic belong to an unpremeditated and an undivided field that refuses classificatory and ordering anticipations.

Se é verdade que tais situações produzidas pelas montagens não permitem reconhecer enredos e nem formar quadros narrativos familiares, ao apontar para uma circuntância pré-verbal em que as palavras ainda não foram pronunciadas, o que advém são formas adâmicas e figurações inominadas, convite para conexões visuais e travessias literárias que acolhem percepções e sensibilidades diversas.

Assim, o horizonte primigênio não é alcançável pelas delimitações temporais ou precisões espaciais, nem se reduz à ilustração de causas e bandeiras, mas por meio de uma instância selvática que desconhece a falsa ordem catalográfica. As imagens não são fruto de uma acumulação tranquila, mas proliferam por meio de uma imaginação transgressiva e híbrida, sem jamais se reduzir à razão, ao saber ou à consciência. Compondo uma variedade imagética que desconhece o paradeiro dos dicionários e mapas, o inantecipável é a única lei capaz de manter um pensamento aberto ao que virá, sempre em busca de uma figuração da coisa- outra, intacta e resistente à publicidade política. Menos como uma realidade enciclopédica e mais como parte de uma maravilhosa e desconhecida gramática, as formas criadas se dão a ver, não para acrescentar mais um produto ou para dizer como o mundo deve ser, mas para subtrair-se a ele, refazendo-o.

Rosângela Miranda Cherem – Doutora em História pela USP (1998) e Doutora em Literatura pela UFSC (2006); Profa. Associada de História e Teoria da Arte no Curso Artes Visuais e Programa de Pós-graduação em Artes Visuais no CEART- Universidade do Estado de Santa Catarina/Brasil

If it is true that such situations produced by the montages do not allow to recognize plots nor to form familiar narrative frames, in pointing to a pre-verbal circumstance in which the words have not yet been uttered, what comes are adamic forms and innominate figurations, this is an invitation for visual connections and literary crossings that welcome diverse perceptions and sensibilities.

Thus, the primordial horizon is not attainable by temporal delimitations or spatial precisions, nor is it reduced to the illustration of causes and mottos, but by means of a savage instance that does not know the false cataloging order. The images are not the result of a quiet accumulation, but proliferate through a transgressive and hybrid imagination, without ever being reduced to reason, to knowledge or to consciousness. Composing a variety of images that does not know the whereabouts of the dictionaries and maps, the unantecipated is the only law capable of keeping a thought open to what will come, always in search of a figuration of the thing-another, intact and resistant to political publicity. Less like an encyclopedic reality and more as part of a wonderful and unknown grammar, the created forms are given to see, not to add another product or to say as the world should be, but to subtract it to it, reworking it .

Rosângela Miranda Cherem – Doctorate in History (University of São Paulo – USP, Brazil) and in Literature (Federal University of Santa Catarina – UFSC, Brazil). Works as Professor of Art Theory and History at the Art Centre of the Santa Catarina State University (CEART – UDESC).

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