Pensamento do inantecipável e figuração da coisa outra

Pensamento do inantecipável e figuração da coisa outra

Nos trabalhos de Cássio Markowski os corpos não querem ser retratos, os espaços não se resumem a paisagens, as cenas obliteram as situações reconhecíveis. Em meio a flutuações e vazios, o que emerge são encontros e combinações inesperadas: um cacto nas nuvens, um rosto-espelho de árvores, pares de pessoas sem rostos, um homem com cabeça e pé de cogumelos. Resultando numa imagem que não se deixa resumir pela simplicidade de um presente, nem pela mera afirmação de uma presença, o que se destaca é o momento em que a forma está se formando. Trata-se de compostos matéricos e rítmicos, incidências de rastros e devires que reembaralham os significados fechados em proveito de enigmas. Semelhante a uma cenografia hieroglífica e onírica, é o jamais visto que cintila com a sutil intensidade do que não se deixa antecipar.

Operando através de uma perturbadora (des-) continuidade e interrogando tanto a verdade ontológica como a própria subjetividade, tanto a precisão visual como os fragmentos do mundo produzido pela realidade midiática, suas apropriações e colagens fotográficas pertencem a um campo impremeditado e indiviso que recusa as antecipações classificatórias e ordenadoras.

Se é verdade que tais situações produzidas pelas montagens não permitem reconhecer enredos e nem formar quadros narrativos familiares, ao apontar para uma circuntância pré-verbal em que as palavras ainda não foram pronunciadas, o que advém são formas adâmicas e figurações inominadas, convite para conexões visuais e travessias literárias que acolhem percepções e sensibilidades diversas.

Assim, o horizonte primigênio não é alcançável pelas delimitações temporais ou precisões espaciais, nem se reduz à ilustração de causas e bandeiras, mas por meio de uma instância selvática que desconhece a falsa ordem catalográfica. As imagens não são fruto de uma acumulação tranquila, mas proliferam por meio de uma imaginação transgressiva e híbrida, sem jamais se reduzir à razão, ao saber ou à consciência. Compondo uma variedade imagética que desconhece o paradeiro dos dicionários e mapas, o inantecipável é a única lei capaz de manter um pensamento aberto ao que virá, sempre em busca de uma figuração da coisa- outra, intacta e resistente à publicidade política. Menos como uma realidade enciclopédica e mais como parte de uma maravilhosa e desconhecida gramática, as formas criadas se dão a ver, não para acrescentar mais um produto ou para dizer como o mundo deve ser, mas para subtrair-se a ele, refazendo-o.

Rosângela Miranda Cherem – Doutora em História pela USP (1998) e Doutora em Literatura pela UFSC (2006); Profa. Associada de História e Teoria da Arte no Curso Artes Visuais e Programa de Pós-graduação em Artes Visuais no CEART- Universidade do Estado de Santa Catarina/Brasil

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